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O ponto de vista do morto, num filme de John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.09.10

 

Um homem que sempre viveu no território da lei do mais forte, a que aprendeu a adaptar-se e a nele sobreviver, ser surpreendido por um forasteiro formado em leis, que tinha sido abandonado quase morto por tentar defender uma dama, de um bandido temível e temido, Liberty Valance...

... sim, um homem assim ser confrontado com um idealista que acredita convictamente que é possível viver num mundo regido pela lei e pela ordem, pelos argumentos da palavra e não da arma...

... e não ser só isso, o facto deste forasteiro lhe vir alterar as ideias sobre as leis do mundo, foi sobretudo vir alterar-lhe os planos futuros... a Hallie apaixonar-se por ele... era quase inevitável, esta mania das mulheres serem maternais, protectoras... e terrivelmente românticas, aquela de ter arriscado a pele por uma dama... mas ele, por exemplo, pela Hallie, arriscaria tudo, tudo... será que ela não sabia isso?

É claro que sabia, vinha logo recorrer à sua ajuda providencial sempre que o forasteiro corria perigo. E o forasteiro tinha a terrível mania de se colocar em situações de perigo, como aquela de desafiar o Liberty Valance.

Mais uma vez salvei o forasteiro, mas só pela Hallie, tudo pela Hallie... vê-la assim inclinada sobre ele, solícita, só porque tinha um braço ferido... e o meu coração? Não viu ela, a ingrata, o meu coração a sangrar? Vá-se lá entender as mulheres, querem um homem e ficam com o rapazinho.

Afogar o desgosto em whisky, que mais pode um homem fazer em semelhantes circunstâncias? Era isso ou dar um murro no rival, mas isso estava fora de questão, salvara-o não salvara? Aí decidira tudo. Estupidamente romântico, decidira acreditar na possibilidade daquele forasteiro realizar esse sonho de implementar a lei e a ordem e de fazer a Hallie feliz.

Agora a casa já não fazia sentido, a casa para a Hallie. E a dor, a dor insuportável...

Erguer-se de novo e ainda ter forças para empurrar o forasteiro, tinha de assumir as suas responsabilidades, ser um homem, aceitar a nomeação. Afinal, se ensinara a Hallie a ler, agora tinha de lhe dar assuntos legíveis. Para isso ainda teria de lhe dizer quem é que matou o Liberty Valance. Seja.

Voltarão só para o meu funeral. A Hallie não me parece muito feliz. Pálida. Oh Hallie, talvez tivesse sido melhor tê-lo deixado morrer naquele duelo suicida com o Liberty Valance... Hallie... e vem com a flor de cacto que lhe ofereci um dia. Hallie, Hallie... preferiste esse rapazinho idealista, o que é que queres? Agora tens apenas fantasmas à tua espera, doces recordações...

 

Este é o ponto de vista do morto, o nosso herói. John Ford sabe que ele é o herói, o que abdica:

- do papel de herói, do protagonismo;

- e da Hallie, por amor, idealismo ou estupidez (com John Ford nunca se fica a saber).

O herói de John Ford não fica imune à vida, a vida fere-o, trespassa-o, fulmina-o. Às vezes apenas o desilude e cansa. Outras, revolta-o e leva-o à acção. Outras ainda, surpreende-o com a felicidade.

Aqui é o primeiro caso. O nosso herói escolhe o caminho mais difícil. E nós, ao vê-lo sofrer a perda dos seus sonhos, quase desejamos que ele não seja tão insuportavelmente nobre, que ele escolha a sua própria felicidade.

É provável que na minha primeira visão deste filme, e teria os meus trinta e tal anos, tenha simpatizado sobretudo com o papel do Jimmy Stewart. O homem idealista, o homem das leis e da ordem. O homem vulnerável e sensível. Hoje, surge-me como um homem essencialmente obcecado e egoísta, mesmo sem o saber, um imaturo, a quem as coisas acabaram por correr bem.

Se a América hoje, mediada pela lei e pela ordem, é melhor? Não sei. John Ford também deve ter formado uma opinião muito particular. A lei e a ordem, indeed! Afinal, não tivera o nosso herói que disparar sobre o bandido? O que teria sido do forasteiro sem essa ajuda preciosa, a lei da arma? O que pensaria John Ford quando colocou aqui este dilema? Secretamente, agrada-me pensar que o próprio John Ford tinha sérias reservas em relação à eficácia desta lei e ordem e que teria preferido, em certas circunstâncias muito particulares, mandar a lei e ordem às malvas e assentar um murro valente em certos sujeitinhos tipo Liberty Valance. Secretamente, também confesso que um murro bem assente resolveria muitos dilemas actuais.

 

Na verdade, já vislumbrei uma outra América, infinitamente mais livre e feliz. A América primordial, onde talvez tivesse sido possível iniciar uma história diversa. Onde a diversidade fosse possível naquela vastidão imensa... Mas o homem traz consigo a doença original e esquece o seu lado sublime.

 

 

 

 

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publicado às 14:37

A vulnerabilidade e a coragem

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 05.12.09

 

É véspera de Natal e ela está sozinha. Sentada naquele sofá.

“Estava a olhar para o céu…”, diz a mulher para o homem quando verdadeiramente se reencontram. Ela já embrulhada no xaile branco de renda que ele lhe trouxera de casa da avó.

A vulnerabilidade. Tão injusta. Tudo o que nos pode acontecer. A vida feita de imprevistos.

E a capacidade de olhar a realidade e continuar. A mulher continuou. O homem, paralelamente, continuou. Mas sentiam-se estranhamente incompletos.

Quem não sonha com um final feliz para estes dois? Mesmo que sejam personagens pouco verosímeis! Ou talvez por isso…

 

 

 

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publicado às 01:02

Quando o Cinema antecipa a História

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.11.08

 

Guess Who's Coming to Dinner está carregado de significado histórico. Foi o último filme com o par mágico Katharine Hepburn-Spencer Tracy. E antecipou, de forma curiosa, a eleição de um Presidente-síntese racial e síntese cultural.

Só neste fim-de-semana, ao revê-lo no canal Hollywood, reparei que, no próprio filme, no diálogo entre o pai da rapariga (Spencer Tracy) e o médico com quem ela quer casar (Sidney Poitier) esse acontecimento é antecipado no plano do possível e de um optimismo (da rapariga):

Joanna diz que os nossos filhos podem até vir a ser Presidentes...

Um pouco adiante o pai da rapariga diz: Talvez daqui a 50, 100 anos...

 

Sim, o filme antecipa já novos tempos para a América...

Quase consigo imaginar o escândalo que o tema terá despertado na altura em muitas mentes fechadas. E não apenas na comunidade branca, digamos assim. Também o filme refere isso: a resistência àquele casamento é uma resistência das  duas comunidades (e inclui Tillie, a empregada que está naquela família há mais de 20 anos e quer proteger a sua menina).

Estava-se em 1967. E o mais fascinante dessa época é a incrível frescura de um certo Cinema, e de uma parte dos intelectuais, que contrasta com uma outra parte muito agarrada a tradições e preconceitos.

 

Mas voltemos ao filme: a resistência das duas comunidades. Como em Tillie, que assimilou, sem questionar, que uma coisa são os direitos civis. Outra, muito diferente, o que se passa aqui...

Essa resistência não é igual no lado feminino e no lado masculino. No lado feminino, esta resistência é só no primeiro impacto (fabulosa Katharine Hepburn!), pois são mais rápidas e flexíveis na aceitação da situação. Ou porque vêem e sentem o afecto genuíno daqueles dois, os fortes laços que os unem.

A resistência masculina permanece até ao fim (do filme, entenda-se).

Magnífico diálogo entre o pai da rapariga e a mãe do médico em que ela, apesar de perceber a sua motivação (dele) proteger aqueles dois, não via que iriam sofrer muito mais se não pudessem ficar juntos. E diz-lhe com lágrimas na voz: os homens, quando envelhecem, esquecem-se do amor que sentiram quando jovens...

É esta simples frase que mais impacto terá no pai da rapariga e que lhe dará o mote para aquele monólogo final, que é de cortar a respiração e de nos deixar arrepiados, porque é sobre aqueles dois mas também com aqueles outros dois: Spencer Tracy e Katharine Hepburn. É nesse monólogo que diz lembrar-se perfeitamente desse amor enquanto jovem, desse amor ainda vivo. E esta frase fica no ar: Se vocês sentirem um pelo outro metade do que nós sentimos, valerá a pena.

 

Ainda não lhes dediquei um texto neste rio sem regresso. Como foi isso possível, se têm sido uma das minhas maiores referências?

 

Mas hoje é da antecipação da História, e de Sidney Poitier que vou falar. Porque vi, há uns meses um documentário no canal ARTE e o papel simbólico de Sidney Poitier nesta mudança anunciada. Um papel de continuidade histórica também.

Sidney Poitier sabe que as anteriores gerações de actores afro-americanos lhe abriram um caminho, que ele continua. É como se lhe preparassem a possibilidade de dar o passo seguinte: de personagens com profissões subservientes (amas, empregadas domésticas, motoristas, seguranças, recepcionistas de hotel, moços de recados, etc.) para personagens com profissões com formação académica e socialmente mais influentes.

Interessante observar como também em Guess Who's Coming to Dinner vemos já uma diferença de postura e de atitude nas duas gerações. Uma, a do pai do médico, que teve ainda de lutar, numa sociedade que lhe lembra todos os dias a sua condição de "negro", para investir numa vida melhor para o filho. E outra, a do filho, que interiormente reformulou essa imagem social, para se afirmar noutra dimensão: a sua condição de homem, acima de tudo.

Também esta ideia de continuidade de um percurso cultural, de uma evolução de mentalidades está no filme:

No diálogo do médico com o seu pai, este, para o dissuadir do casamento, tenta o argumento da cobrança afectiva e lembra-lhe todos os anos de sacrifícios e privações para que ele pudesse ter um futuro melhor. Mas sem resultado. O filho responde-lhe à letra, que o que o pai fez por ele é o que um pai faz pelo filho, é o mesmo que ele próprio fará pelo seu filho. E por fim resume, no olhar e numa frase, tudo o que sente naquele momento: Eu amo-o, é o meu pai. E por isso só espera que o pai aceite a sua felicidade.

 

Sidney Poitier é um homem inteligente e com uma forma insólita e desarmante de abordar a questão racial. Em parte  porque não nasceu na realidade americana. Como ele próprio referiu no documentário: Na América os afro-americanos são uma minoria. Mas nas Caraíbas, somos a maioria da população.

Por isso, quando o questionaram sobre o seu fraco papel no activismo afro-americano, respondeu: Continuam a tentar reduzir-me a essa dimensão, a minha negritude. Mas essa é apenas uma das minhas facetas. Além de tudo o mais, sou um homem, sou um cidadão americano, tenho uma determinada personalidade, uma intervenção e uma história.

 

 

 

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publicado às 12:16

A interpretação humana da lógica divina

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.09.08

 

The End of the Affair. Inclinei-me, depois de o ver, para esta ideia essencial: a interpretação humana da lógica divina, pois aqui vemos uma forma muito intensa e absoluta de se relacionar com o divino.

Mas também podia ser: cuidado com as promessas que fazemos no plano extraordinário. Uma promessa pode ficar registada para sempre num lugar a que dificilmente podemos ter acesso. Impossível desprogramar.

E também podia ser: não se pode agarrar uma ave em pleno vôo. Agarrar, para natureza masculina; vôo, para natureza feminina. É assim que as duas naturezas nos são aqui reveladas, assim mesmo, tão diversas!

 

2ª Guerra Mundial. Este pormenor é muito importante, porque vai definir o fim de um relacionamento amoroso. Mas antes, vemos uma mulher que vive a tranquilidade de um casamento-amizade. E quando o amor surge, o amor irá impor-se. Ele, um escritor de personalidade intensa e absorvente.

O amor não é prudente. Um dos seus encontros é subitamente perturbado por um bombardeamento e o prédio onde estão é atingido. Ele saíra do quarto para ver o que se passa e é apanhado em pleno vão das escadas, caindo de uma altura considerável. Quando se aproxima dele, desesperada, ela vê-o imóvel, pálido, sem vida.

Volta ao quarto, ajoelha-se e pede o impossível. Que ele viva! Mas para pedir esse impossível segue a lógica da promessa que envolve o maior sacrifício possível: se ele viver, renuncia a ele, ao amor.

Esta é a forma dela se relacionar com o divino: há sempre um preço elevado a pagar pelo amor e pela felicidade.

 

E o impensável acontece. Ele surge ali, ao seu lado... atordoado, balbucia o seu nome... E ela percebe. E o que percebe é: Deus dá-lhe a vida, a ele, em troca da sua, dela, razão de viver, da possibilidade do amor.

Ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido.

A promessa está feita. E num tal momento de aflição, fica impressa no tal lugar a que dificilmente voltará a ter acesso, para a desprogramar. Quando ele surge ali, vivo, é toda uma outra realidade, uma outra dimensão, do inexplicável, do irreal.

 

Interrompo aqui por momentos para assimilar e organizar melhor as ideias. Este é um dilema filosófico que me fascina pela sua dificuldade. É que ainda estou muito longe de uma saída compreensível...

 

... Onde ia eu? Ah, sim... Ela ergue-se, compõe-se e sai, perante o olhar dele, atónito e perdido. Um turbilhão de sentimentos e emoções invade-o, acentuando o seu lado obsessivo e possessivo. Inicialmente quer apenas perceber, para poder aceitar. Aquela corrida, a coxear da queda, debaixo de uma chuva constante, atrás do carro... é de partir o coração... O coração (dele) fecha-se, petrifica-se. A dor da perda, sem compreender a razão, torna-o frio e cruel.

Só muito mais tarde, quando lhe surripiar o diário (dela), uma prova, um facto concreto a que se agarrar (comportamento tão masculino!) é que percebe que o que realmente se passou ocorreu numa outra realidade, a lógica de uma interpretação da lógica divina. Uma forma absoluta de se relacionar com o divino. Sim, ele percebe, mas não aceita.

 

Voltarão a encontrar-se. Ela dir-lhe-á que não tem forças para resistir ao amor. Mas sabe qual o preço a pagar: o fim, a saída de cena.

Os dois homens acompanharão esse fim juntos. Ambos sofrem, mas cada um à sua maneira. Um, porque nunca concebeu a sua vida sem ela e acha que não vai suportar a dor (o marido). O outro, talvez para amortecer o impacto da dor, alimenta a revolta: contra Deus, contra a vida, contra o mundo.

Li algures que as personagens que aqui nos despertam mais simpatia e compaixão são a mulher e o marido. Talvez... mas aquela corrida desesperada, sem nada compreender, e depois, mesmo tendo percebido, sem conseguir aceitar, toda essa revolta...

 

Bem, ainda não é desta que me aproximo de uma saída para este dilema... das condições da promessa... para pedir o impossível... Nova interrupção, pois...

 

... A ver se é desta. Voltemos às condições da promessa (dela): para que ele viva, compromete toda a sua vida a partir daí, a possibilidade do amor. Podemos questionar: Mas então porque não pediu simplesmente que ele viva?

Será que me aproximo de uma saída plausível se disser que o seu pedido, de tão extraordinário, na dimensão divina, teria de ser completamente e inequivocamente altruísta? De uma total abnegação? Teria de ser apenas por ele, para que ele possa viver, para que a sua vida lhe seja devolvida, e não para si mesma? E que essa era a condição da sua possibilidade?

É como se tivéssemos interiorizado estes princípios: nada nos é dado que não tenha de ser devolvido (a vida, em primeiro lugar); tudo tem um preço e nada é garantido (os imponderáveis); pedir o impossível só abnegadamente.

 

 

 

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publicado às 17:49

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44

D. Juan de Marco

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.02.08

Marlon Brando, um psiquiatra em fim de carreira, um pouco murcho e desencantado, é chamado de urgência para dissuadir um jovem de saltar do telhado de um prédio. Elevador exterior, lá sobe até ao jovem e vê que se trata de D. Juan, nem mais nem menos. Resolve entrar na história e assumir a pele de um nobre espanhol, convencendo-o a descer.

Já no hospital psiquiátrico, este D. Juan, que veste a fatiota e fala de uma forma poética e romanesca, conta o seu passado. Uma história digna de um romance de aventuras, com amores e paixões, duelos e mortes trágicas! Mas o que mais perturba o psiquiatra e que o leva a querer acompanhar o jovem até ao fim é a forma como D. Juan fala do amor e das mulheres.

Entretanto o nosso D. Juan vai mudando a vida de alguns naquele hospital. E o nosso psiquiatra não será excepção, ao ser confrontado com o seu próprio deserto e desencanto. Magnífica troca de papéis…

Os primeiros efeitos começam a notar-se. Pequenos gestos que começam a dar uma nova cor à sua vida. Convidar a mulher para um jantar romântico, surpreendê-la de forma teatral, com música e tudo! A cumplicidade e o riso, as conversas brincalhonas e metafóricas, a paixão como a chama que renasce, o motor de tudo, afinal! Perguntar-lhe-á no jardim quais os seus sonhos. Ela, que sempre viveu em função dos sonhos dele… fica confusa no início, depois comove-se.

Mas há um prazo, ditado pela direcção, para o tratamento. Exigem ao psiquiatra o início da medicação, é tempo do jovem descer à terra.

Magníficas cenas finais, com D. Juan a ser avaliado pelos serviços que decidirão sobre o seu destino, internamento ou liberdade.

E uma praia paradisíaca em que o jovem encontra a sua amada. Aquela das suas histórias, a única entre mil. Acompanhado ao longe pelo casal em nova lua-de-mel que pode ser para sempre. Porque não?

 

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publicado às 15:30

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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publicado às 16:30

As Neves de Kilimanjaro

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.12.07

 

O homem espera ansioso e febril. Uma ferida estupidamente infectada. A mulher não se conforma com o desfecho iminente. África como ponto de viragem na vida daqueles dois.

No meio da febre, memórias poéticas e trágicas. A juventude vivida intensamente, sem medir consequências. Passagem pela mítica Espanha, sonhos de heroísmo, mortes sem sentido. E amores antigos ainda vivos. Estranhamente ainda vivos.

Os homens e a sua necessidade de medir forças com o mundo e consigo próprios, como se estivessem sempre inquietos, à procura de qualquer coisa. Sempre a arriscar a vida, no limite.

E é esta mulher, a que está agora ao seu lado, que o tenta proteger, de forma quase maternal. É esta mulher, que ele afasta de forma inconsciente, que luta agora com todas as suas capacidades, inteligência, determinação, para lhe salvar a vida.

Nesta luta a mulher ganha. A vida ganha. O homem acorda e não será apenas da infecção. Olha-a como se pela primeira vez. Hemingway também lutava consigo próprio à procura da ideia exacta, do texto exacto. O que escreve, como escreve, revela essa luta constante. Como uma tourada, vida e morte, sem tréguas.

 

 

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publicado às 16:22

Nada substitui a companhia de outro ser humano

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.12.07

All that Heaven Allows. Uma mulher na sua viuvez conformada. Vários filhos. Família típica americana dos anos 50. Uma vida aparentemente perfeita. E uma empatia que nasce, a alegria de uma companhia com alguém genuíno, livre, que coloca os afectos à frente das convenções sociais.

Os filhos seguem as suas vidas, vão para a universidade. Ela fica sozinha. O egoísmo inconsciente da juventude! É mais confortável manter a mãe condicionada ao papel de mãe, mesmo já não precisando dela como antes. Irão insurgir-se contra o afecto da mãe por esse homem mais jovem. Irão querer substituir esse afecto, essa companhia, por uma televisão.

No filme, a mulher não desiste do afecto e da companhia. Até porque aprecia a companhia deste homem… calmo, afectuoso, sensato, culto. A casa reflecte isso mesmo, um espaço que acolhe, que aconchega. É essa ideia que fica a sobressair, a de uma companhia.

Magnífica previsão da solidão actual. Substituem-se pessoas, uma companhia, por uma televisão ou por um computador. Mas já não são apenas os mais velhos, os solitários sem alternativa. Agora são os próprios jovens a preferir o computador ao contacto humano.

 

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publicado às 15:42

The Best Years of Our Lives

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.11.07

Voltar a casa. Expectativas, ansiedade, receio. Perceber que muita coisa mudou. Perceber que se é preterido no aeroporto por um empresário rico, por exemplo. Perceber que o seu papel já não é valorizado, que já se passou para o fim da lista. O oportunismo natural das sociedades. Isto é universal, mas aqui é a América. Onde tudo parece andar mais depressa.

Voltando atrás. Ao aeroporto onde os nossos soldados esperam por uma vaga num avião que os leve de volta a casa. Têm postos militares e especialidades diferentes. O que não os impede de confraternizar como se já se conhecessem. Há uma cumplicidade imediata naquele trio. A consciência da sua humanidade e do que é essencial: os afectos, e integrar-se de novo na comunidade, num outro papel em que se sintam úteis.

O marinheiro ficou mutilado e usa próteses de forma hábil, fisicamente mantém a autonomia, mas receia que a namorada, ainda muito jovem, se impressione. O cabo, o mais velho, é casado, tem dois filhos, trabalha num banco e vive confortavelmente numa das avenidas modernas. O piloto, recém-casado, é o mais medalhado mas também o mais ferido na alma, mantém o pesadelo nocturno da morte de um companheiro.Foi por esta ordem que foram sendo entregues nas suas casas, nervosos, hesitantes, amedrontados.As guerras utilizam e trituram vidas de jovens. Depois, largam-nos sem qualquer sentido de responsabilidade. Sem qualquer respeito pelo que viveram e passaram. E estamos a falar dos que voltam…Estes voltaram. E dão-nos uma lição de humildade, dignidade e humanidade que é raro, raríssimo ver hoje em dia nas nossas comunidades modernas. Mostram-nos o que de essencial se está a perder. Todos eles encontram o seu lugar depois de sofrer decepções, depois de enfrentar a frieza e o cinismo. E todos eles encontram o afecto. E todos, de forma comovente.

 

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publicado às 15:16


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